Comentários ao artigo "A experiência de alunos do PET-Saúde com a saúde indígena e o Programa Mais Médicos", por Raquel Pêgo

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Autores: Silva, Reijane Pinheiro daBarcelos, Aline CostaHirano, Bruno Queiroz LuzIzzo, Renata SottomaiorCalafate, Jaqueline Medeiros SilvaSoares, Tássio de Oliveira.

Revista: Interface comun. saúde educ; 19(supl.1): 1005-1014, Dez. 2015. tab.

Link: http://pesquisa.bvsalud.org/pmm/resource/pt/lil-758161

O artigo em questão trata sobre a relação entre médicos intercambistas e comunidades indígenas. Chama a atenção para a experiência dos alunos do PET-Saúde junto à comunidade indígena que merece ser conhecida e refletida pelos atores envolvidos na gestão da formação dos médicos e pelos gestores dos serviços de saúde nas comunidades indígenas.

Entre os resultados apresentados estão as carências que enfrentam os médicos e os demais profissionais de saúde que conformam a equipe multidisciplinar no cotidiano do trabalho, entre elas “a estrutura física, insumos e disponibilidade de profissionais”. Observam também que as condições para o acolhimento dos pacientes são precárias e, frente a um quadro de carência, reconhecem a importância dos médicos intercambistas e da experiência dos alunos do Pet-Saúde para a comunidade e para a formação.

Com relação aos médicos intercambistas, o artigo destaca os seguintes pontos a serem considerados pelos gestores:

  1. A questão da linguística tem solução

Os pesquisadores notificam que o problema da língua é real junto às comunidades indígenas mas que tem solução, por meio do auxílio de um profissional nativo acompanhando os médicos intercambistas nas consultas. O texto ressalta ainda que o idioma do intercambista não é problema visto que na comunidade atendida nem o Português é a primeira opção de língua.

A dificuldade de comunicação foi outra questão levantada, uma vez que paciente e médico possuem idiomas completamente distintos. Os usuários indígenas relatam alguns momentos em que tiveram dificuldade em entender as falas dos médicos intercambistas, sobretudo na chegada deles à área, mas afirmam que essa dificuldade foi sendo superada com o passar do tempo. Os indígenas, sobretudo os mais velhos e muitas mulheres, essas por razões culturais, tem pouco domínio da língua portuguesa. Os médicos, por outro lado, não sabem a língua nativa, o Akwẽ-Xerente, e não tem total domínio do português, o que, muitas vezes, dificulta a comunicação entre médico e paciente. Nesse contexto, foi de importante destaque a participação de técnicos em enfermagem nativos que trabalham na unidade de saúde da comunidade, para auxiliar em momentos em que a comunicação estava prejudicada. Os usuários indígenas reconhecem que, sem a ajuda desses profissionais, os atendimentos eram comprometidos, sobretudo, ao terem de expressar o que estavam sentindo, como ocorreu no início do Programa Mais Médicos, o qual coincidiu com uma época em que ainda não havia técnicos nativos trabalhando nos postos de saúde. Os enfermeiros do polo relatam que, até então, cabia a eles intermediarem a comunicação entre médico e paciente, e que, muitas vezes, pediam auxílio, durante as consultas, para os acompanhantes que dominavam o idioma português” (pag.1011, destaque nosso).

  1. Importância de considerar as diferenças étnicas na formação do médico

A pesquisa demonstra a necessidade de conhecer a cultura do outro para uma boa relação médico-paciente-comunidade e sugere:

           “Seria importante, uma vez que os médicos são destinados para áreas específicas, que eles recebessem um curso de capacitação sobre a cultura e a língua materna dos povos nativos, quando enviados para áreas indígenas, visto que esses grupos apresentam particularidades tanto culturais quanto linguísticas”.

  1. Quando o conhecimento das plantas medicinais marca a diferença na relação médico-comunidade indígena

Outra observação dos pesquisadores diz respeito a importância de se conhecer as plantas medicinais quando se trata de comunidade que preserva tal conhecimento. O conhecimento das plantas medicinais por parte dos médicos intercambista foi importante para fortalecer a relação entre estes profissionais e a comunidade.

Por outro lado, a formação acadêmica dos médicos intercambistas apresenta diferenciais oportunos para o exercício da medicina no contexto das comunidades indígenas. Dentre eles, destaca-se o conhecimento sobre plantas medicinais. Segundo o médico, em seu país, é comum cursos de atualização sobre o uso de plantas em tratamentos terapêuticos e, na própria graduação, eles já têm um grande contato com essa área do conhecimento. Essa prática foi de extrema consonância com a realidade indígena, uma vez que o povo Akwẽ-Xerente tem, na base de sua cultura, a prática de utilização de plantas medicinais10, e que, na aldeia, há um acesso fácil a algumas espécies de plantas. O que no passado representava uma prática comum, hoje, tem sido substituído por uma forte medicalização. A capacitação de profissionais de saúde com o conhecimento sobre plantas medicinais poderia diminuir os custos para o sistema público e, consequentemente, minimizar os problemas de acesso a medicamentos devido a sua falta nas redes de saúde, resultando em uma fonte alternativa de tratamento para os usuários que são, na sua maioria, parte de uma população de baixa renda” (pag. 1011).

  1. O que fazer quando práticas culturais criam problemas de saúde

Aqui os pesquisadores valoram a importância da visita domiciliar como uma estratégia para identificar práticas culturais que tem consequências para a saúde e que não são percebidas pelo grupo cultural.

Outro aspecto importante é o costume de fazer visitas às casas da comunidade e avaliar não apenas o estado dos indivíduos, mas, também, suas condições de moradia, o que lhes proporcionam uma visão mais fidedigna e holística da saúde de seus pacientes. Os profissionais do polo afirmam que os médicos atentam-se para questões como: a presença de animais domésticos, presença de filtro e estrutura das casas. Uma enfermeira relata que os médicos conseguiram entender melhor o alto número de casos de patologias respiratórias na comunidade Akwẽ-Xerente após constatarem, a partir das visitas domiciliares, que era comum as moradias não terem janelas e, portanto, dificultarem a circulação de ar e predisporem ao acúmulo de fumaça no interior dos cômodos. Segundo a cultura Akwẽ-Xerente, a fumaça produzida pelo uso do fogão à lenha, presente em quase todas as casas, é um aliado no combate a mosquitos e animais, como cobras, pois os afugentam” (pag. 1011).

Leia mais: O que fazer frente a um costume que busca resolver um problema e cria outros. Como sair deste impasse?

Menéndez Eduardo. “Saúde intercultural: propuestas, acciones y fracasos”. Em: Ciência&Saúde Coletiva, vol.21, núm.1, janeiro 2016, pp.109-118.

Garnelo Luiza. “Aspectos sócio-culturais de imunização em áreas indígenas”. Hist. cienc.saude-Manguinhos vol.18 no.1 Rio de Janeiro Mar. 2011.http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702011000100011

Helman, Cecil G. “Cultura, saúde e doença/ Culture, health and disease”. Porto Alegre; Artmed;2009.431p. ilus,tab.

 

Raquel Abrantes Pêgo é doutora em Ciências Sociais, colaboradora da OPAS-Brasil, professora visitante no Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UNB) e colaboradora da Rede de Pesquisa Análise de Políticas de Saúde no Brasil

 

 

 

 

 

 

*Raquel Abrantes Pêgo é doutora em Ciências Sociais, colaboradora da OPAS-Brasil, professora visitante no Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UNB) e colaboradora da Rede de Pesquisa Análise de Políticas de Saúde no Brasil. Rabra.pego@gmail.com

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