A Clínica e o Programa Mais Médicos

A prática clinica é um tema pouco estudado no âmbito do Programa Mais Médicos. Fizemos um esforço para identificar alguns estudos que tratam desta relação e destacá-los devido a importância dos resultados para a saúde da população atendida e também para o Sistema Único de Saúde. Em artigos referentes ao Eixo Emergencial é possível encontrar menções as ações para reforçar a saúde do homem jovem, a saúde mental, e dar conta dos problemas de hipertensão e diabetes. Veja por exemplo em: “Tempo de colheita: experiência no Programa Mais Médicos na zona rural de Lagoa de Pedras/RN”, Nascimento Filho, José Medeiros do; Roch, Nadja de Sá Pinto Dantas. Rev. bras. med. fam. comunidade; 13(40)jan.-dez. 2018.

No Eixo Formação encontramos um artigo que analisa a formação dos médicos às doenças genéticas e aos defeitos congênitos, e observa que o “Projeto Mais Médicos prevê a manutenção da Genética Médica como uma especialidade cujo programa de residência tem acesso direto”. Citamos em seguida o referido artigo que trata justamente da necessidade de uma adequação da formação do médico durante a graduação e também capacitação de profissionais já formados e o entendimento da necessidade de estruturar e promover cursos de educação permanente para esses profissionais de forma contínua, no tempo suficiente para conseguir atualizar a maioria deles em genética e que vê o PMM uma oportunidade para uma melhor formação.

“Uma possível estratégia para isso pode ser aproveitar o período de um ou dois anos de residência em Medicina de Família e Comunidade, que está previsto atualmente no Projeto Mais Médicos, para ser obrigatório a partir de 2018, antes do ingresso nas demais especialidades médicas, como oportunidade para capacitação em Genética. O sucesso dessa estratégia está condicionado a eventuais desdobramentos do Projeto Mais Médicos, que, neste momento, atravessa uma situação de instabilidade institucional e incerteza com relação ao seu futuro”. Veja em: Qualificação e provimento de médicos no contexto da Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras no Sistema Único de Saúde (SUS), Melo, Débora Gusmão; Germano, Carla Maria Ramos; Porciúncula, Carlos Guilherme Gaelzer; Paiva, Isaias Soares de; Neri, João Ivanildo da Costa Ferreira; Avó, Lucimar Retto da Silva de; Demarzo, Marcelo Marcos Piva; Galera, Marcial Francis. Interface (Botucatu, Online); 21(supl.1)2017

O Programa Mais Médicos permite inúmeras possibilidades de formação e melhoria na atenção clínica no âmbito da atenção primária. O artigo que citamos a seguir é o relato de uma experiência que combina formação e intervenção visando melhorar a atenção no pré-natal e puerpério na área de abrangência da equipe da Estratégia de Saúde da Família na cidade de Boa Vista em Roraima. “A intervenção fez parte de um Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Saúde da Família de uma médica cubana vinculada ao Programa Mais Médicos”. (…) “Foram realizadas ações de organização e gestão do serviço, qualificação da prática clínica, monitoramento e avaliação e engajamento público. Resultados: Com a intervenção, foi possível melhorar a organização do serviço para a atenção às gestantes e puérperas. Observou-se melhoria gradativa na cobertura da atenção, acesso ao serviço, qualidade dos atendimentos clínicos e adesão às ações ofertadas. Houve um fortalecimento das ações de promoção à saúde com orientações, palestras e desenvolvimento de uma parceria com a equipe de saúde bucal. Conclusão: Os profissionais ficaram mais capacitados para atender as gestantes e puérperas com conhecimentos atualizados e sensibilização sobre a atuação no trabalho da atenção primária”. Veja em: “Programa Mais Médicos: qualificação da atenção ao pré-natal e puerpério no âmbito da estratégia de saúde da família”, Vidal, Iliana Verdial; Santos, Elitiele Ortiz dos; Prado, Ernande Valentin do. Rev. APS; 20(3): 403-413, 20/07/2017.

Quando se trata de hanseníase encontramos um artigo que vale citar. Observam que em Cuba o contrário do Brasil, a hanseníase não é endêmica e que “o diagnóstico e o manejo clínico da doença não compõe o percurso formativo da graduação em medicina no país”. Trata-se de um problema de saúde pública que requer diagnóstico precoce e tratamento oportuno da doença, favorecendo, assim, os prejuízos motores e neurológicos que a doença acarreta. No estudo realizado no município de Altaneira, Ceará, foi observado um “aumento significativo do número de atendimento prestados a pacientes portadores de tuberculose e hanseníase e a redução nos encaminhamentos. Para os autores esse fato parece ser reflexo das ações de busca ativa disparadas por esses médicos e suas equipes, fazendo com que o número de notificação e diagnóstico aumentasse. Portanto, por mais que haja o desconhecimento sobre os critérios diagnósticos da hanseníase, pode ser superado pela organização do processo de trabalho com foco na busca ativa e no cuidado integral. Um estudo quantitativo dos indicadores de situação e produção em saúde nesse município subsidiaria a confirmação dessa hipótese”.  Veja em: Percepção dos profissionais de saúde e gestores sobre a atenção em hanseníase na Estratégia Saúde da Família, Andrade Girão Neta, Odete; Maria Melo Soares Arruda, Gisele; Maria Barbosa Carvalho, Mariza; Rosilene Magalhães Gadelha, Raimunda. Rev. bras. promoç. saúde (Impr.); 30(2): 239-248, 06/06/2017.

Outro artigo que vale a pena citar é referente a infecção do trato urinário e o uso de antibióticos. O estudo foi realizado em Divinópolis, Minas Gerais, e a amostra de profissionais participantes do estudo foi composta por médicos generalistas brasileiros e estrangeiros, estes vinculados ao Programa Mais Médicos para o Brasil. “Conforme demonstrado, de uma maneira geral, apesar de os médicos participantes possuírem ampla experiência profissional (mediana=19 anos de experiência) e formação em nível de pós-graduação (54,4% com residência ou especialização concluída em Medicina de Família e Comunidade), os resultados apresentados demonstram uma evidente necessidade de educação continuada direcionada a esses profissionais, considerando o manejo clínico geral dessas infecções (principais antimicrobianos utilizados, tempo de tratamento e solicitação de propedêutica urinária)”.

“Quanto ao manejo das ITU, 42 (73,5%) médicos revelaram que solicitam, de forma habitual, algum exame laboratorial diante de um paciente com suspeita de cistite aguda não complicada. Destes, 71,9% utilizam, na propedêutica habitual, o exame de urina rotina, 52,6% o Gram de gota não centrifugada, 26,3% a urocultura, 21,0% o hemograma e 3,5% a dosagem sérica de Proteína C reativa. Quando perguntados sobre as indicações de realização de urocultura previamente ao início do tratamento antimicrobiano, 61,4% dos médicos disseram que solicitariam urocultura em casos de ITU de repetição; 24,5% caso o paciente fosse portador de outra comorbidade; 12,2% nos casos de falha terapêutica; 12,2% em todos os pacientes com suspeita de ITU e 4 (7,0%) entrevistados não solicitariam urocultura prévia em nenhuma situação. Em relação ao antimicrobiano de primeira escolha no tratamento empírico de uma cistite aguda não complicada no adulto, a maioria dos médicos optou por norfloxacino (56,1%), seguido por sulfametoxazol+trimetoprima (19,3%), ciprofloxacino (10,5%) e nitrofurantoína (8,8%). A duração do tratamento para o antimicrobiano escolhido foi de 3 dias para 3,5% dos entrevistados, 5 dias para 10,5% deles, 7 dias para 68,4% e 10 dias para 17,5%. Entre as possíveis opções terapêuticas para o tratamento empírico de cistite aguda não complicada em adultos, a maioria dos entrevistados respondeu que poderia utilizar norfloxacino (93,0%), sulfametoxazol+trimetoprima (86,0%), ciprofloxacino (84,2%) ou nitrofurantoína (84,2%). Adicionalmente, os antimicrobianos cefalexina, amoxicilina e ampicilina foram considerados como possíveis opções terapêuticas por 54,4%, 40,3% e 28,1% dos médicos entrevistados, respectivamente. Veja em: “Infecções comunitárias do trato urinário em Divinópolis, MG: avaliação do perfil de resistência bacteriana e do manejo clínico”, Ferreira, Vanessa Machado; Rossiter, Lucas Nicolas Viana; Aragão, Nicole Faraje Ferreira; Pinto, Otávio Augusto; Santos, Paola Mara; Cardoso, Pedro Henrique Alves; Cerqueira, Thaís Braga; Fernandino, Débora Moura; Rocha, Gustavo Machado. Rev. bras. med. fam. comunidade; 12(39)jan.-dez. 2017.

Por outro lado o PMM melhorou o acesso e em consequência o aumento de consultas e de prescrição de receitas, em particular o uso de antimicrobianos.  Este é um tema pendente e comentado pelos autores do seguinte estudo: “Implementação da nova regulamentação para prescrição e dispensação de antimicrobianos: possibilidades e desafios”, Sampaio, Pamella da SilvaSancho, Leyla GomesLago, Regina Ferro do. Cad. saúde colet., (Rio J.); 26(1)jan.-mar. 2018.

Colunista

Artigo selecionado pela pesquisadora Raquel Abrantes Pêgo, consultora da Plataforma de Conhecimentos do PMM, doutora em Ciências Sociais, colaboradora da OPAS-Brasil, professora visitante no Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UNB) e colaboradora da Rede de Pesquisa Análise de Políticas de Saúde no Brasil

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