Objetivo (6) do PMM – Troca de conhecimento e experiências entre profissionais da saúde brasileiros e estrangeiros

O objetivo (6) em análise parte da premissa que, “quando um país recebe profissionais médicos de outros lugares, eles possam trazer consigo atitudes, saberes e tecnologias úteis aos seus próprios contextos assistenciais. É possível, inclusive, que tais elementos possam se difundir em outros serviços de atenção primária, passando a ser conhecidos, ou mesmo demandados, por pacientes” (Aguiar, 2017, citado mais abaixo). Sua realização implica uma valorização das interações, dos vínculos criados entre os profissionais brasileiros e os estrangeiros a partir das relações laborais, de atenção e de ensino.

Trata-se de um objetivo que valoriza as interações entre os professionais da saúde e que está muito vinculado ao que fazer da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), como instituição técnica que fomenta a cooperação e a troca de experiências entre países em saúde, em particular no âmbito da cooperação sul-sul e para seu desenvolvimento. O “locus” privilegiado do intercambio é nos serviços, mais também pode se dar na gestão e no ensino e, no caso dos médicos cubanos, também na especialização a distância, obrigatório como parte das exigências do convênio entre Brasil e Cuba.

O primeiro artigo citado refere-se justamente ao ponto referido e para verifica-lo desenvolvem um software para a análise de conteúdo, de entrevistas em um estudo de casos múltiplos na área de saúde: a categorização das falas dos entrevistados em três sets distintos como forma de sistematizar e cruzar: a) informações descritivas, como a estruturação e o funcionamento de uma unidade de saúde; b) as percepções de entrevistados (elogios, críticas, menções a problemas, alusões a mudanças, atribuições de desencadeamentos de processos a atores específicos); e c) os assuntos tratados (as categorias analíticas em si). O estudo em questão é de natureza quanti-qualitativa e visou à identificação de inovações e aspectos positivos, passíveis de disseminação, no trabalho de médicos estrangeiros integrantes do Programa Mais Médicos para o Brasil em serviços de Atenção Primária em um estado brasileiro. (AU) Estratégia de estruturação categórica no software Nvivo 10 em um estudo de caso sobre o Programa Mais Médicos no Brasil, Aguiar, Raphae Augusto Teixeira de; Almeida, Jullien Dábini Lacerda de. s.l; s.n; [2017]. Os resultados do desenvolvimento do software acima referido foi publicado em Atenção básica a saúde e o Programa Mais Médicos em Minas Gerais: um estudo de casos múltiplos”, Organização Pan-Americana da Saúde. Brasília; OPAS; 2017.

O próximo artigo citado refere-se a percepção dos profissionais cubanos sobre o processo de aprendizado da especialização a distância em saúde da Família para sua prática profissional e os aprendizados mais relevantes. A base empírica do artigo são “os depoimentos registrados no item “Reflexão crítica sobre seu processo pessoal de aprendizagem” dos trabalhos de conclusão do curso de especialização da Universidade Federal de Pelotas”. “Foram selecionados aleatoriamente 101 relatos de um total de 1.011 trabalhos concluídos de junho a dezembro de 2015, em sete estados das regiões norte, nordeste e sul”.

As conclusões que chegam é que “as barreiras iniciais foram vencidas com o apoio dos orientadores e integração da equipe, com destaque às ferramentas de ensino para o aprimoramento da prática clínica e organização estratégica do trabalho, além de maior compreensão sobre o sistema de saúde público. O reforço no aprendizado da língua portuguesa e a troca de experiência nos fóruns foram considerados aspectos positivos valiosos. Apesar da dificuldade no acesso à Internet em alguns municípios, foi reafirmado o papel central da educação permanente e a viabilidade da metodologia da problematização, mesmo a distância”. “Reflexões dos médicos sobre o processo pessoal de aprendizagem e os significados da especialização à distância em saúde da família Thumé, Elaine; Wachs, Louriele Soares; Soares, Mariangela Uhlmann; Cubas, Marcia Regina; Fassa, Maria Elizabeth Gastal; Tomasi, Elaine; Fassa, Anaclaudia Gastal; Facchini, Luiz Augusto. Ciênc. saúde coletiva; 21(9): 2807-2814, Set. 2016.

O terceiro artigo que será comentado faz referência a relação de intercâmbio entre o médico brasileiro e o cubano no contexto dos serviços. O artigo analisa os desafios e impasses na implementação do Programa Mais Médicos, no município de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro. O estudo pretende ressaltar a guinada nas estratégias e ações da gestão pública municipal de saúde e, mais especificamente, traz como diferencial analítico a mudança de status orçamentário do município, decorrente da queda dos royalties do petróleo e as implicações na condução das políticas públicas.

O argumento parte, de um lado, dos tempos de abundância e de escassez de recursos; e de outro, da empiria, relatada pela experiência profissional na Estratégia Saúde da Família. Os achados apontam que a chegada de médicos estrangeiros promoveu uma reestruturação positiva dos serviços de saúde. No entanto, pode-se perceber que o intercâmbio cultural, possibilitado pelo contato entre os profissionais brasileiros e cubanos no cotidiano de trabalho, propiciou novas práticas profissionais, valorizando as tecnologias relacionais. (AU) O risco dos extremos: uma análise da implantação do Programa Mais Médicos em um contexto de volatilidade orçamentária Vargas, Annabelle de Fátima Modesto; Campos, Mauro Macedo; Vargas, Diogo de Souza. Revista Eletrônica Gestão & Sociedade; 10(26)mayo-ago. 2016.

O artigo que será citado a seguir problematiza algo subjacente ao Programa MM, que são “os valores do trabalho, vez que esses profissionais encontram no Brasil uma cultura diferente da sua e um trabalho com características e especificidades próprias deste país. Nestes termos, o estudo objetivou analisar os valores do trabalho de médicos estrangeiros que atuam no PMM na região da Amures/SC. (…) Os principais resultados possibilitam constatar que a categoria que obteve índice mais elevado junto aos participantes foi relações sociais, com média geral de 4 numa escala que variou de 01 a 05 (entre nada importante e extremamente importante). Em sequência a categoria realização no trabalho com média geral de 2,79, ‘prestigio com média geral de 1,9 e estabilidade com a média geral de 1,8. Constatou-se que a categoria relações sociais que incluiu o relacionamento com os colegas, a manutenção da saúde e ajudar os outros a atingir as metas do grupo – foi definida por todos os respondentes como o principal valor agregado ao trabalho. Houve a confirmação de umas das hipóteses inicialmente proposta, pois se comprovou que os médicos estrangeiros que atuam no Brasil absorvem os valores do trabalho das organizações brasileiras. Observa-se ainda que existe um número significativo de estudos brasileiros sobre os valores do trabalho, no entanto, até o momento, não há estudos que fazem referência ao PMM”. (AU) Valores do trabalho: estudo junto a médicos estrangeiros do Programa Mais Médicos na região da Amures/SC, Silva, Anne Caroline daKanan, Lilia AparecidaMachado, Bruna Gomes. Rev. UNIPLAC; 6(1)2018.

Outro conjunto de estudos tem o foco na cooperação internacional e na Diplomacia da saúde global. Estes estudos vão analisar a troca de conhecimento e experiências entre países com vistas a promoção da cooperação internacional em pesquisa, capacitar recursos humanos e um dos supostos destes estudos é de que As atividades de cooperação técnica podem colaborar para o desenvolvimento das capacidades dos países envolvidos, fortalecendo as relações e ampliando o intercâmbio, a geração, a disseminação e a utilização do conhecimento técnico científico, bem como a capacitação dos trabalhadores e o fortalecimento de suas instituições”. Recursos humanos em saúde: crise global e cooperação internacional, Portela, Gustavo Zoio; Fehn, Amanda Cavada; Ungerer, Regina Lucia Sarmento; Poz, Mario Roberto Dal. Ciênc. Saúde Colet; 22(7)jul. 2017. Veja também Diplomacia da saúde global: proposta de modelo conceitual, Martins, Pollyanna; Aguiar, Andréa Silvia Walter de; Mesquita, Caroline Antero Machado; Alexandrino, Francisca Jamila Ricarte; Silva, Nayane Cavalcante Ferreira da; Moreno, Melinna dos Santos. Saúde Soc; 26(1)jan.-mar. 2017.

Artigo escrito pela colunista da Plataforma de Conhecimentos, Dra. Raquel Abrantes Pêgo

Consultora Raquel Abrantes Pego

Raquel Abrantes Pêgo é doutora em Ciências Sociais, colaboradora da OPAS-Brasil, professora visitante no Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UNB) e colaboradora da Rede de Pesquisa Análise de Políticas de Saúde no Brasil

 

 

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